Uni duni Ler Todas as Letras é um projeto de incentivo à leitura voltado principalmente para bebês e idosos. Tem patrocínio do Fundo de Apoio à Cultura – FAC, da Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal e vai realizar, gratuitamente, leituras públicas, rodas de histórias e cantigas e oficinas com a participação de escritores, ilustradores e contadores de história.

Conheça seu Pedro, o Rei das Pipas, artesão do Festival Itinerante de Leitura

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Seu Pedro já fez de tudo na vida: vendeu picolé, revista no trem, peixe na feira, catou caranguejo no mangue. Era de lá, do manguezal, que ele tirava o bambu que usava para fazer o brinquedo que mais o encantava: a pipa. Era só sobrar um trocadinho de suas vendas, que ele corria na quitanda pra comprar o papel de seda e soltar suas alegrias no ar.

Mal o menino Pedro Paulo Soares Assis sabia que faria da sua brincadeira a profissão que exerceria o resto da vida. Em Porto das Caixas, no Rio de Janeiro, sendo o mais velho de oito irmãos, mal tinha tempo de brincar. Precisava ajudar os pais no sustento da casa. Só aos 15 anos, quando foi morar na casa dos tios, em Bonsucesso, percebeu que o ofício que aprendera sozinho, aos oito anos, poderia ser fonte de renda.

Os tios tinham uma fábrica de pipas e ele, que já era mestre na arte, passou a ajudar e depois a fabricar os próprios modelos. Vendia na bicicleta. Levava pros armarinhos, papelarias e bancas de jornal. O negócio deu certo e seu Pedro investiu de verdade no crescimento da empresa.

No Rio, comprou um terreno, construiu uma casa e se casou. Teve uma filha. Mas o casamento não durou e seu Pedro decidiu deixar o estado pra morar na capital do país. Há trinta anos desembarcou na rodoferroviária de Brasília.

Depois de uma temporada na casa da irmã e outra em Taguatinga, se instalou em Ceilândia, na casa onde vive até hoje. No andar de baixo, morava, no de cima, trabalhava nas pipas. O ateliê era grande e chegou a ter 15 funcionários. No auge do negócio, produzia mil pipas por dia.

Uma das funcionárias da empresa, Helena Olga, chamou a atenção de seu Pedro. Logo se casaram. As duas filhas dela também ajudavam na confecção. Daí as pipas viraram negócio de família. Não tanto para o filho do casal, o caçulinha nunca gostou muito. Curtia mesmo era a tecnologia. Tanto que fez faculdade de computação. A ajuda que deu foi na criação do site, o que fez com que as pipas do seu Pedro chegassem ao Brasil inteiro.

Quem imaginaria? Hoje, aos setenta anos, dois filhos, duas enteadas e 4 netos, seu Pedro ostenta o merecido título de Rei das Pipas. O sucesso é o diploma que carrega. Ele não pôde estudar. Tem o ensino fundamental incompleto. “Só tenho o primário, mas tenho a escola do mundo e a faculdade da vida.”

Atualmente, só ele a esposa se dedicam à produção. Como o processo mecanizado, a dupla faz cerca de 300 pipas por dia. “As crianças não tem mais tempo para soltar pipa”, lamenta ele. Mas isso não o desanima. Agora investe em tecnologia: faz pipas especiais, com varetas de fibra de carbono e papel de polipropileno, mais resistente, à prova de água e mais leve, por isso, mais rápida também.

No mercado, encontrou um nicho especial: as pipas personalizadas. Com a possibilidade de impressão no papel especial, faz e vende pipas com propagandas para qualquer tipo de empresa, negócio, divulgação.

Todas trazem uma mensagem educativa: não empinar em lajes e telhados pelo risco de queda; cuidado com ruas e lugares movimentados; atenção com motoqueiros e ciclistas e não soltar pipas perto de antenas e fios de alta tensão; procurar por áreas abertas, como praças e parques e, principalmente, nunca usar cerol.

Ele já sentiu na pele o risco que o cerol traz. Perdeu, há vinte anos, as pontas dos dedos médio e anelar da mão direita num acidente em uma máquina de moer vidro para fazer o cerol. “Naquele tempo não era proibido”, lembra ele.

Não precisa brincar de cortar a pipa dos outros, segundo seu Pedro, basta se encantar com a dança que ela faz no céu. “A pipa é a arte dos ventos. Sou encantado com a acrobacia que ela faz no ar”.

Por isso, nem pensa em se aposentar: “Da pipa não vou aposentar nunca porque o importante é fazer o que gosta. Se você gosta, não está trabalhando está se divertindo”.

Ele se diverte tanto que até fez uma marchinha de carnaval com o tema. “O chinês inventou a pipa, eu aperfeiçoei. Rei das Pipas Ponto Com na escuta. Ah minha pipa tá no ar. Minha pipa voadora, minha pipa tá no ar. Ela subiu em Brasília, Passou pela Bahia e caiu no Canadá.”

Foi seu Pedro, com toda sua alegria e versatilidade, que confeccionou as 360 pipas que serão empinadas no próximo dia 14 de outubro na Esplanada dos Ministérios pelas crianças participantes do Festival Itinerante de Leitura. Cento e sessenta delas estavam em branco e foram customizadas com poesias e ilustrações por crianças alunas do Sesc Ceilândia em setembro. As outras, com textos e desenhos de escritores e ilustradores famosos, participantes dessa e das outras duas edições do FIL, vão ser entregues para as crianças que lá chegarem para brincar.

A ação, de promoção ao empoderamento infantil, ocorre dois dias depois do Dia das Crianças. É uma forma poética e leve de cobrar das autoridades do país o respeito e a atenção que as crianças do Brasil merecem.

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