Uni duni Ler Todas as Letras é um projeto de incentivo à leitura voltado principalmente para bebês e idosos. Tem patrocínio do Fundo de Apoio à Cultura – FAC, da Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal e vai realizar, gratuitamente, leituras públicas, rodas de histórias e cantigas e oficinas com a participação de escritores, ilustradores e contadores de história.

Mães e crianças ameaçadas experimentam a leitura afetiva em Casa Abrigo

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O Uniduniler todas as letras III Festival Itinerante de Leitura – FIL desembarcou, nessa sexta-feira (8), num território pouco habitado por fantasias e árido pela própria existência: uma casa abrigo sigilosa que acolhe mulheres e crianças vítimas de violência. Ameaçadas de morte, foram vítimas das mais desumanas atrocidades e, para continuarem vivas foram arrancadas da própria vida. Estão confinadas. Dividem quartos, rotinas e medos. Só saem com escolta policial.

Bem diferente de um lar, a casa que os acolheu não reserva espaço para o riso, apesar do zeloso trabalho social de assistentes, psicólogas e pedagogas. Em cada olhar, há uma tristeza profunda, mas também uma esperança de um outro final para todas aquelas histórias.

Desde a primeira visita, de reconhecimento ao local, não consegui parar de pensar no que eu poderia fazer lá, para ajudar aquelas mães a construir uma narrativa mais poética para suas vidas. Cheguei lá num misto de ansiedade e muita vontade de poder partilhar momentos felizes com aquela gente tão sofrida.

A leitura afetiva teve três momentos distintos:

O primeiro, só com as funcionárias. Participaram a gerente da Casa Abrigo, as assistentes sociais, as psicólogas e pedagogas que se surpreenderam com o quanto é simples desde que com um bom livro na mão e um pouquinho de tempo doado, alimentar imaginários.

O segundo momento foi uma leitura sensorial no livro gigante do Jardim Encantado com os bebês. A maior parte das crianças abrigadas tem menos de 3 anos de idade. Além de experimentar as sensações de uma leitura com os 5 sentidos, as mães que participaram da leitura partilharam emoções.

Num dos momentos mais intensos, depois que estendemos um lençol de mar imaginário, pedi a elas que se alimentassem de algo poderoso: a esperança. Assim como os náufragos que depositam seus pedidos de socorro em garrafas e lançam ao mar, elas sopraram também numa garrafa desejos para elas e para os filhos! Paz, confiança, tranquilidade, uma vida cheia de amor foram sopros em alto e bom som. Outros foram sussurrados mesmo entre suspiros profundos, algumas lágrimas e até sorrisos! Os mesmos olhos profundamente tristes que vi quando eu cheguei, ali sorriram. Sim, olhos também sorriem!

O momento final foi uma roda de leituras, histórias e cantigas com todos, funcionários e acolhidos.

O Uniduniler deixou a Casa Abrigo, mas plantou por lá uma semente, com o kit de livros doados. A direção da Casa avisou que vai criar o Cantinho da Leitura. As pedagogas prometeram iniciar atividades de hora do conto uma vez por semana e as mães e crianças já se empolgaram em ler juntas, ali mesmo, enquanto desmontávamos o equipamento da apresentação.

Eu, claro, ganhei o dia e mais uma vez tive a certeza de que a literatura é mesmo antítese da impossibilidade! Dentro de um livro tudo cabe! A literatura liberta!

Alessandra Roscoe é escritora e coordenadora do Uniduniler todas as letras – Festival Itinerante de Leitura projeto patrocinado pelo Fundo de Apoio à Cultura da Secretaria de Cultura do Governo de Brasília.

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